Projeto para o concurso público nacional para ponte e passarela em Blumenau – Santa Catarina, projeto do escritório Marco Milazzo Arquitetos Associados, classificado em quarto lugar.
Nossa proposta para a ponte e a passarela sobre o Rio Itajaí-Açu em Blumenau, Santa Catarina, parte do conceito principal do contraponto entre escalas. Projetamos a passarela de pedestre para que ela possua uma escala humana, enquanto a ponte uma escala monumental. A partir deste conceito principal decidimos que apenas uma das duas obras de arte deveriam ter um caráter de marco simbólico para a cidade, não criando dois pontos focais competindo entre si. O marco simbólico foi criado a partir do grande pilar do sistema estaiado adotado para a ponte.
PASSARELA – ESCALA HUMANA
Para a passarela de pedestres os detalhes foram considerados mais importantes. Adotamos uma estrutura metálica treliçada espacialmente, que com seus detalhes de fixação criam um objeto rebuscado, intrigante, somente perceptível na escala e na velocidade do pedestre. A opção pela estrutura treliçada também se deve ao custo. Dentro do valor estabelecido seria inviável uma solução estaiada ou em arco. Outro motivo para a solução adotada foi a de não criar nenhum elemento estrutural acima do tabuleiro, permitindo que o pedestre tivesse uma visibilidade maior, limpa, de ambos os lados da passarela, e ao longo de toda sua extensão.
Queríamos também dar à passarela um caráter de continuidade da praça e da rua, sem que fosse simplesmente um local de passagem. Por este motivo variamos a largura do tabuleiro ao longo do comprimento da passarela. A partir de cada margem a largura inicia com 6 metros e inclinação de 5% e vão aumentando até o trecho mais alto onde foi criado um platô de observação e descanso. Neste platô foi criado um nível mais baixo, uma área de contemplação, e dando movimento na estrutura e no tabuleiro da passarela. Este nível rebaixado permite que os pedestres no nível superior tenham uma vista totalmente desobstruída, inclusive do guarda-corpo metálico que protege as laterais da passarela.
PONTE – ESCALA MONUMENTAL
Para o projeto da ponte escolhemos a opção estaiada, por questões econômicas, estéticas, conceituais e técnicas. Para o vão de 150 metros, dentro da faixa mais econômica, já teríamos uma ponte estaiada como melhor opção, que só foi reforçada por não haver espaço suficiente em uma das margens para que pudéssemos implantar uma estrutura em arco. Decidimos então simplificar a forma do tabuleiro, mantendo somente o mesmo padrão de guarda-corpo utilizado na passarela de pedestres, e atribuir um caráter escultural, com a presença da torre que sustenta os cabos estaiados ancorados à ponte. Apenas um elemento escultório monumental poderia ser percebido na velocidade dos automóveis, e os detalhes ficam quase imperceptíveis.
Para que o pilar adquirisse um caráter escultório, adotamos uma forma diferenciada, parcialmente orgânica. Devido ao problema de falta de espaço para inserir cabos no sentido oposto aos cabos que suspendem o tabuleiro da ponte, este pilar necessitou de uma estrutura mais robusta juntamente com uma leve inclinação e uma única linha de cabos que é lançada do topo do pilar, em direção ao meio das duas pistas de automóveis da Rua Uruguay. Procuramos tornar o pilar mais interativo no contexto urbano, integrando o cabo à rua e a base do pilar à calçada e a futura praça no seu entorno.
CONCEITO ESTRUTURAL – PASSARELA
O projeto para a passarela possui cargas mais leves, efeitos de torção e de movimento horizontal muito menores, e para o vão proposto de 170 metros, poderíamos adotar vários sistemas estruturais, inclusive estaiado ou em arco, mas que não se adequariam ao valor determinado para a sua construção. Dentro do valor determinado, optamos por uma estrutura treliçada, menos escultural, mas formalmente diferenciada.
O tabuleiro é suportado por vigas de alma cheia paralelas que suportam o piso de madeira. Estas vigas são o elemento principal do corpo da treliça espacial, que se desenvolve inferiormente com perfis tubulares. A escolha da madeira no piso e nos bancos tem como objetivo integrar as características construtivas tradicionais da cidade com a modernidade representada pelo metal. O conjunto de perfis forma um desenho triangular, que vai mudando de proporção ao longo da passarela. Nos trechos mais solicitados e nos trechos onde este “triangulo” é maior, há um reforço adicional feito por diagonais e subdivisões na treliça. Quando a treliça se aproxima das margens do rio, há um berço de concreto que faz a conexão da estrutura metálica com as fundações.
CONCEITO ESTRUTURAL – PONTE
A solução adotada para a ponte sobre o Rio Itajaí-Açú foi a que mais se adequava aos condicionantes físicos e econômicos exigidos, porém, ao contrário da passarela de pedestres, optou-se por uma estrutura visualmente mais simples, com tabuleiro de concreto armado e protendido, suspenso por cabos estaiados em um grande pilar de concreto.
O comprimento total da ponte possui 192 metros, sendo 150 metros suportada pelos cabos estaiados e 42 metros apoiados diretamente em uma estrutura de concreto.
A margem esquerda do rio está praticamente no nível 11 metros e a margem direita está no nível aproximado de 17 metros. Por este motivo não foi possível adotar nenhuma solução que criasse apoios na margem esquerda do rio, como seria necessário na solução em arco. Em contrapartida, na margem direita o espaço disponível é bem maior, além de estar em um nível mais alto o que facilitaria a solução estaiada com um grande pilar neste ponto.
Para o tabuleiro da ponte foi adotada uma solução de duas vigas laterais longitudinais de concreto armado in loco, entre as duas margens do rio, onde são apoiadas vigas protendidas pré-moldadas transversalmente. Assim, a quantidade de aterro é mínima, o nível inferior de 11 metros não é ultrapassado, e ao mesmo tempo não há o uso de vigas caixão. Poderíamos adotar uma solução com módulos inteiros pré-moldados protendidos diretamente ancorados nos estais, mas achamos que a solução adotada seria mais fácil de ser executada por trabalhar com peças menores, facilitando a montagem e o transporte.
O pavimento de concreto e as vigas de borda resistem a torção local e a torção global ocasionadas por todos os tipos de carga, além da empuxo horizontal dos estais.
As vigas laterais são estaiadas por um conjunto de cabos de aço ancorados com arranjo do tipo “fan”. O sistema “fan” combina a facilidade construtiva do sistema de “arpa” e as vantagens estruturais e econômicas do sistema “radial”. Os estais no lado superior da ponte formam um plano totalmente vertical, alinhado ao centro do único pilar de concreto que leva as cargas às fundações. Os estaios do lado inferior estão levemente inclinados porém visualmente alinhados quando a ponte é visualizada do rio. Pelo estudo preliminar os estais terão de 7 a 10 barras, cada uma com 3cm de diâmetro, e serão protegidas por um tubo de aço. Durante a execução, os cabos ficarão desacoplados, e depois dos ajustes finais os cabos serão acoplados e “grouteados”.
A suspensão da ponte será feita pelo método Cantilever. Dois pares de estruturas móveis serão usadas para fazer uma concretagem seqüencial das vigas laterais. O tabuleiro da ponte será formado por perfis T prefabricados protendidos de concreto, colocados sobre as vigas principais de concreto.
ILUMINAÇÃO
A proposta para a iluminação de ambos os tabuleiros é com a utilização de leds balizadores formando várias linhas ao longo do percurso da ponte para os pedestres e bicicletas. Para a via de carros haverá luminárias embutidas nas proteções de concreto.
Na passarela de pedestres uma iluminação por baixo do tabuleiro faz uma lavagem destacando as treliças. Além disso uma linha mais intensa de leds é criada no centro da passarela, sob uma faixa de piso de vidro.
Uma solução com canhões de luz e leds também ilumina os cabos e o pilar do sistema estaiado da ponte.
INSTALAÇÕES
A passagem das instalações na passarela de pedestre é feita pela alma das vigas principais da treliça, logo abaixo do tabuleiro. Na ponte as tubulações são fixadas por baixo das vigas pré-moldadas.