Memorial Covid-19 Fiocruz

Acesso Principal Memorial Covid-19 Fiocruz

Rio de Janeiro – RJ – 2024
cliente: Fiocruz / Fiotec
área construída: 2.625 m²

Agrado, alívio, consolo, refrigério, bálsamo, bem-estar, conforto, consolação, descanso, lenitivo, a sensação de proteção e santuário em um todo maior.

O campus da Fiocruz é um oásis no meio caótico e intensamente urbanizado entre favelas e a avenida Brasil. Uma área intensamente arborizada, com edificações de diferentes épocas, histórias e estilos. Nosso projeto busca criar uma experiência de tranquilidade e intimidade, intensificando as características do lugar, projetando um oásis dentro do oásis, um santuário de reflexão e acolhimento, permitindo o contato com a natureza, com o próximo e com o seu próprio eu.

Partimos também da premissa de respeitar a ambiência e a memória do local do projeto, tentando não extraindo nenhuma árvore existente e mantendo o lago, porém alterando a sua forma. A manipulação da natureza pelo homem deve ser sustentável, comedida, uma troca de benefício mútuo. Da mesma forma buscamos um terceiro partido para o projeto, adotando ao máximo materiais naturais, com pouco beneficiamento, sustentáveis e orgânicos.

Com esse objetivo, o paisagismo é protagonista, e se integra a um único volume, que se fez necessário principalmente para criar um ambiente isolado acústica e visualmente. A construção no meio do terreno é limitada pelas árvores e ocupa parte do lago existente, com a menor dimensão possível para materializar o espaço idealizado.  O terreno recebe um leve aterramento, ficando levemente inclinado a partir da calçada até o centro, assim permitindo a retirada da escada e rampa existentes e nivelando as caixas de instalações com o piso.

Duas superfícies espirais se entrelaçam, criando dois caminhos que vão se estreitando até se encontrarem na área central do novo lago. A cobertura também segue inclinada e diminuindo de altura durante o percurso. Assim, os visitantes vão aos poucos se sentido enclausurados, até encontrarem o ambiente interno, acolhedor, descoberto, iluminado, silencioso, onde só é possível vislumbrar o céu e a copa das árvores, apenas ouvir o barulho da água, dos pássaros do viveiro, e o eco promovido pela conjugação das superfícies curvas paralelas. Um lago e a vegetação que muda ao longo das estações do ano: as flores desabrochando e murchando, as pessoas chegando e permanecendo perto das plantas, conversando, lendo um livro, caminhando ao redor do lago, dando uma olhada no que está crescendo naquele instante. O único elemento artificial é uma superfície de vidro translúcido incrustada no meio do lago. A atmosfera é pacífica.

 

Em contrapartida, do respeito ao natural, a forma construída é rigidamente geométrica, quase simétrica, matematicamente projetada: é a representação da ação humana sobre o sítio e os materiais. A estrutura é contínua, sem quinas, sem quebra do percurso, por este motivo formada por curvas, O ambiente, as sensações e a lembrança devem ser mais presentes que a matéria. A forma curva também permite estruturalmente a inclinação das paredes aumentando o seu momento de inércia. Além das duas entradas principais, foram projetadas duas entradas secundárias menores, protegidas, para conexão com os jardins e saídas de emergência.

Um jardim com uma grande variedade de flores segue a forma externa da edificação e se prolonga em seu interior, acompanhada por uma faixa iluminada, um rasgo por onde entra a iluminação natural e a chuva, que escorre pelas paredes e alimenta o canteiro. Duas áreas externas são criadas: uma praça de acesso, intercâmbio entre o ambiente mais movimentado e a edificação, e uma praça de saída, dentro da vegetação mais densa, um local mais calmo e silencioso. A vegetação existente deve ser ampliada, principalmente em direção ao muro para a rua, com espécies de diferentes alturas e com alta densidade, intensificando o isolamento e a dispersão do som vindo da rua.

As paredes construídas são de taipa com uma estrutura e peso que promovem um alto isolamento do som externo e uma sensação de eco do som interno. A cobertura é estruturada com vigas de madeira e uma dupla camada de telhas de madeira com miolo de isolamento acústico feito com palha. Os materiais utilizados são naturais, envelhecem com dignidade, exigindo pouca manutenção, e as paredes serão parcialmente recobertas externamente com trepadeiras, promovendo a continuidade da vegetação existente com a nova intervenção.

Na face oposta ao canteiro de flores interno, a parede serve de suporte para que funcionários da Fiocruz, médicos, enfermeiros, e pessoas que perderam amigos e entes queridos possam deixar mensagens, imagens, fotos, ou quaisquer outros elementos que tragam conforto, lembranças e luto. A cada geração de novos funcionários da instituição, uma nova camada de elementos pode ser aplicada na parede, acumulando a história da tragédia, mas também a esperança. No meio do lago, uma placa de vidro translúcido serve de suporte para projeções de vídeo, por um projetor embutido na cobertura, com imagens e vídeos que podem trazer reflexões e informações sobre a Fiocruz, as ações do combate a Covid-19 e perspectivas futuras.

Equipe:
Marco Milazzo