2000

Portfolio Completo PDF

PENSO CIDADE QUINTINO

 


 

PENSO CIDADE QUINTINO

Rio de Janeiro - RJ - 2002

cliente: Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro

área construída: 168.000 m²

 


 

A vontade de pensar sobre Quintino nasceu desde que iniciamos o percurso pelo bairro. Lá experimentamos estar em uma outra dimensão de tempo, vivendo um tempo que não pode ser medido por relógios convencionais. Esta foi a nossa primeira experiência espacial. O bairro possui particularidades que o diferenciam do formato conhecido dos subúrbios da zona Norte. Ao contrário daqueles cortados pela via férrea, onde habitualmente há uma divisão clássica e a valorização de uma área (ou lado) em detrimento da outra, em Quintino não existe esta discriminação acirrada, há antes uma disjunção que não exclui ou marginaliza nenhum dos lados do bairro. Não há, por parte dos moradores, desvalorização ou discriminação, não há nem mesmo o (re)conhecimento, o que impede a determinação exata dos seus limites geográficos. Um lado se consolida sem (re)conhecer a existência do outro lado, seja ele qual for. Uma conseqüência da pré-existência da linha férrea, uma barreira a um tempo físico e simbólico que faz com que os dois lados se ignorem antes que possam integrar.

Quintino está circunscrito, formal e geograficamente, dentro de um anel cortado pelo gesto vigoroso da ferrovia. Entretanto, por esta razão, simbolicamente, parece se dividir em duas metades independentes, ambas limitadas pela via férrea. Partes que não se comunicam, estas metades fazem com que seus moradores freqüentem apenas o lado onde habitam, não se (re)conhecendo no outro, coexistindo em dimensões paralelas, apesar de dividirem um mesmo espaço cultural. Paradoxalmente, a atmosfera de Quintino demonstra possuir um poder quase inexaurível de comunicação subliminar, por um conjunto de costumes e tradições pautados por um tempo e por ritmos de vida próprios, do compreensível por aqueles que lá habitam ou transitam costumeiramente. Acreditamos que os bairros se constituam, entre outras coisas, pelos conjuntos de recordações que deles emergem. As memórias de seus moradores parecem elaborar mapas invisíveis onde afetividades e estranhamentos esperam, silenciosos, pela oportunidade de configurar, com fios sedutores, seus registros, representações e desejos. Procurar entender estes caminhos, descobrir que tempo diferencial é este; quais as suas especificidades; quais os seus hábitos e tradições, quais os seus valores, crenças e comportamentos; o que permite a esse lugar a ambigüidade da sua proximidade geográfica e ao mesmo tempo o seu distanciamento temporal da centralidade carioca, estes são alguns dos pontos que nos fizeram escolher o bairro como o lugar de nossa curiosidade, nosso desejo e nossas proposições.

Da abordagem

Nossa abordagem partiu de dois pontos de vista: o primeiro diz respeito ao olhar de intimidade com que procuramos fazer o reconhecimento formal do bairro. O segundo diz respeito ao olhar distanciado que possibilita a visão crítica e racional que leva ao entendimento impessoal. O olhar da intimidade, o olhar apaziguado do dia a dia nos permitiu (re)conhecer e partilhar com os moradores as suas afetividades, os seus estranhamentos, as suas angústias, as suas expectativas e os seus desejos; dividindo com eles os seus espaços e freqüentando as suas festas. O olhar distanciado, facilitado por sermos todos estranhos ao lugar, nos permitiu abordagens cognitivas diferenciadas sobre o que e quais são as esferas de negociação e trânsito entre os moradores e o seu espaço. Fomos a Quintino. Questionários, conversas, compras nas feiras, papos de botequim, jogos na praça, a festa de São Jorge e as festas de Ogun, o “pesque e pague”, as subidas das ladeiras e as paradas nas escadarias, novas amizades… o olhar da intimidade. Coletar, processar, tabular e analisar dados; registrar desejos, perceber diferenças, mapear territórios, aferir estranhamentos e julgar afetividades… o olhar distanciado. Uma contínua inversão metodológica: estranhar o que é familiar e acolher amigavelmente as diferenças… Esses procedimentos podem, à primeira vista, parecer paradoxais. Na verdade estão vinculados e se constituem na base das abordagens e observações antropológicas e de suas representações: máxima interioridade e máxima distância, estabelecendo uma reciprocidade cognitiva. Decodificar mensagens, interpretar desejos, mapear sonhos, construir realidade.

Do espírito do lugar

Vivendo tranqüilidade e bucolismo, o bairro de Quintino está num tempo diferente. O seu ritmo não é o mesmo do grande centro, tampouco é o das centralidades suburbanas, como Madureira e Barra, e nem ao menos é o dos bairros que lhes são fronteiriços, como a Piedade, Cascadura ou Cavalcanti. Quintino divide carências de investimento público, transportes e serviços com todos os outros bairros do subúrbio carioca. Suas fronteiras são porosas, elásticas e indefinidas. Enquanto os bairros fronteiriços convivem diariamente com a violência urbana, Quintino, entretanto, sem policiamento, não registra tais ocorrências.

Em Quintino, a ferrovia veio antes. Como em outros subúrbios, o traçado urbano de Quintino não levou em consideração a topografia existente. Dos dois lados da via férrea, os projetos de loteamento subiram e desceram morros, canalizaram rios e desconsideraram os marcos geográficos existentes, fazendo com que o desenho das ruas prevaleça sobre a topografia do sítio.

Quintino tem poucas áreas públicas, e todas estão do lado esquerdo de quem chega. O ponto focal do bairro - sua principal referência - é a praça Quintino Bocaiúva, reconhecida pela PMRJ como a única área pública de lazer do bairro. A praça é circundada por edificações assobradadas de geometrias tranqüilas e sóbrias; conformando uma tradicional tipologia de subúrbio: instalações comerciais nos andares térreos e residências nos superiores. Algumas lojas térreas, sem recuos e alinhadas ao restante das construções, criam um contínuo formal. Na praça, uma arborização farta sombreia o lugar dos bancos, mesas de jogo e brinquedos infantis, usados intensamente. No centro da praça, no eixo da rua da República, um velho coreto circular em ferro a define e individualiza. Outras áreas, entretanto, são apropriadas para o lazer: o largo do Capitão Couto, situado a meio caminho da rua da República, e o largo da rua Guaramiranga, no sopé da escadaria. Para os “rachas”, o campo “Jorge Leite”. Aos domingos e feriados fecham-se ruas, transformadas em lugares de lazer, prolongamentos das salas de visita. Nas esquinas onde existam bares ou vendinhas, mesas postas nas calçadas, apresentando os mais variados acepipes - churrasquinhos, asinhas de frango, corações no espeto, moela, lingüiça frita, pasteis, empadinhas, bolinhos de bacalhau, etc. - acompanhados da “loura gelada” e ao som do pagode, que ninguém é de ferro.

O complexo cultural e esportivo do CEI chama a atenção por seu acesso regulado ao público, que o vê como um parque seguro e vigiado. Há controle dos horários, locais, modos e formas de seu uso. Nos dias úteis a sua utilização é restrita aos horários noturnos, e os espaços esportivos, quadras e campos são permitidos a grupos pagantes, já previamente inscritos. A sua principal atração é, entretanto, o lago usado para o “pesque e pague”, uma atividade que atrai, mais do que apenas os moradores de Quintino, circunstantes de Madureira, Vila da Penha, Tijuca, Cachambí e Praça Seca.

O Largo do Capitão Couto é um espaço público informal que conta um pouco da história da arquitetura do bairro. As construções de seu entorno imediato são do início do século: chalés alinhados no limite frontal do terreno, ou com jardim frontal. Do outro lado da rua, o largo é delimitado por edifícios construídos na década de 1940. O lugar não possui nenhum mobiliário urbano, além de uma solitária baliza de futebol, usada nas “linhas de passes”, e um bar exótico que só abre em fim de tarde e à noite. Junto ao meio-fio, árvores protegem, com suas sombras, o lazer que acontece no espaço sobrante. Em Quintino o comércio é fraco, obrigando a população a comprar em Madureira, Cascadura ou no Méier. O pouco comércio acontece nas ruas ao lado da linha férrea e ao redor da praça Quintino Bocaiúva. Quitandas, armazéns, bares, botequins, armarinhos e vendinhas revelam o lugar e demarcam territórios. Quintino é um bairro residencial suburbano, com tradições, hábitos e costumes que fazem lembrar lugares interioranos ou parados no tempo - namoro no portão, algumas (raras) serestas, conversas de comadres, fuxicos e futricas, rondas, suecas e outros carteados, pagodes de quintal, “rachas” e churrascos, cadeiras na calçada nos dias de calor, “p’ra aproveitar a fresca” e os “dois dedinhos de prosa”. As festas são concorridas, especialmente a do dia 23 de abril, quando milhares de pessoas comemoram o dia de São Jorge na sua matriz, ao mesmo tempo em que os atabaques da umbanda celebram Ogun, orixá poderoso, e o cheiro de carurú invade as ruas.

Crescendo dos dois lados da ferrovia, Quintino é um bairro dividido e segregado. As possibilidades de cruzamento da ferrovia são apenas duas: o viaduto Compositor Wilson Batista e a saída da Estação de Quintino. Isto parece não importar à população, já que a maioria dos moradores só se relaciona com habitantes do mesmo lada da linha onde moram. Isto gera discriminações do tipo “eu, eu moro do lado certo do bairro”, uma fala curiosamente comum aos moradores dos dois lados da linha.

Dos conceitos

As imagens e suas escrituras. Como mapear qualidades ou atributos? Como Marco Pólo (Calvino, 1987), acreditamos que jamais devemos confundir os lugares com os discursos que o descrevem. (Re)conhecemos Quintino e agora vamos sintetizar os contornos de uma constelação de idéias que, na nossa visão, são pertinentes ao bairro, mostrando uma possível estruturação do ambiente urbano através das linhas de força que permitiram a elaboração de um outro mapeamento da cidade possível, ampliando os limites, reconhecendo as igualdades e considerando as diferenças, permitindo outras possibilidades de experiência através do reforço de suas estruturas simbólicas positivas.

A nova escritura do bairro foi pensada a partir da constatação de que, se o muro e a linha férrea são barreiras físicas e simbólicas, e se essas barreiras dificultam e limitam as possibilidades de interação e integração dos moradores e dos lugares, é a partir da redução dessas mesmas barreiras que se inicia a nossa proposição. Assim, o primeiro e mais importante gesto projetual será o rebaixamento da linha férrea e a conseqüente destruição dos muros, favorecendo a possibilidade da aproximação entre as áreas, antes em disjunção.

Este gesto objetivará a costura entre os dois lados do bairro; viadutos e passarelas incentivando uma maior mobilidade social, maior acessibilidade e visibilidade. Dentre estas intervenções secundárias, a mais significativa: levar a praça Quintino Bocaiúva sobre a linha rebaixada dos trens até ao outro lado, juntando simbolicamente as duas metades do bairro. Se, apesar da ferrovia, o bairro parece ressoar com o mesmo som, não havendo, entretanto, o seu reconhecimento pelas partes, como será então juntar esses sons numa mesma melodia?

Revitalizar Quintino, criando novas áreas comerciais e de lazer poderá configurar um ambiente físico satisfatório para os moradores do bairro, sem os clichês urbanos ou suburbanos usuais, a possibilidade de ser e mesmo de gostar de ser o que se é, um ambiente cheio de vitalidade, sem ter perdido de vista as identidades, os hábitos e as tradições do lugar. A união pelos lugares de uso comum e pelo ir e vir despreocupado. A união pela festa!

“O conceito é o contorno, a configuração, a constelação de um acontecimento por vir.”
DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Felix. O que é a filosofia? Rio de Janeiro, Editora 34, 1992, pg 46.

“…pra se entender, tem que se achar, que a vida não é só isso que se vê, é um pouco mais, que os olhos não conseguem perceber…”
PAULINHO DA VIOLA & HERMINIO BELO DE CARVALHO

 

 

 

 

 

Equipe:

Marco Milazzo
Ana Paula Polizzo
Eduardo Vasconcelos
Gustavo Martins
Elisabete Reis

 

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