2000

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PATAXÓ DE COROA VERMELHA

 


 

PATAXÓ DE COROA VERMELHA

Bahia - 2005

cliente: Funai

área construída: --- m²

 


 

O ENCOBRIMENTO DO OUTRO

“Na Europa, a realidade precedeu ao nome. A América, ao contrário, começou como uma idéia. Vitória do nominalismo: o nome engendrou a realidade. O nome que nos deram nos condenou a ser um mundo novo, a terra de eleição do futuro: antes de ser, já sabíamos como iríamos ser, homens novos, homens do futuro. Durante mais de três séculos a palavra americano e, por simpatia, brasileiro, designou um homem que não se definia pelo que fizera, mas sim pelo que faria. Um ser que não tem passado, um ser que não tem mais do que futuro, é um ser de pouca realidade. Americanos, brasileiros, homens de pouco peso, homens sem memória. Assim, as Américas Espanhola e Portuguesa foram construções intemporais. Tanto em um caso como no outro, o mesmo resultado: a anulação do presente e o desprezo pelo passado. A eternidade e o futuro, o paraíso e o progresso negam ao hoje a sua realidade, a humilde existência do sol de cada dia.”
(VASCONCELLOS, 1999, 2000).

O conceito de descobrimento do Novo Mundo privilegia um olhar unidimensional do europeu cristão. O descobrimento do Novo Mundo como um continente por direito próprio encerra um significado ao mesmo tempo revolucionário e positivo. Com ele a concepção medieval de um mundo plano e limitado transformou-se radicalmente na moderna representação de um mundo redondo, unitário ou global. A forma deste mundo global fundou-se através de uma concepção teológica.

As radicais diferenças de costumes serviam de pequeno pretexto para uma grande ação missionária destinada “a destruição das línguas, dos cultos e das culturas da América e à imposição de um credo global”.
No novo continente, o Europeu impôs uma missão cristianizadora e apocalíptica que mesclava as marcas da violência e da intolerância em relação “as culturas recém-descobertas com visões extáticas de paraísos celestes. O descobrimento do Novo Mundo foi o sinal de uma nova concepção unitária do mundo como orbe cristão”.

Hoje, o credo Global mudou, vivemos um outro mundo, porém ainda não o mundo do OUTRO. A história dos vencidos não é escutada. Com razão, se afirmou que a América Latina estava excluída, como que fora da história. A história dos vencedores sempre prevaleceu.

Busca-se neste trabalho, evidenciar a necessidade de entender o OUTRO, no nosso caso, especificamente, as famílias descendentes de indígenas de Coroa Vermelha, no sul da Bahia Brasil, potencializando, através de um programa genérico de resgate a cultura Pataxó, o necessário desenvolvimento econômico, (paralelamente ao desempenho ambiental refletido pelas propostas de novas habitações) e responsabilidade social de atuar em parceria com a comunidade indígena, no entendimento de suas atuais necessidades e reconhecimento de seus aspectos culturais.

O OUTRO

Ética e Eqüidade Social

Agora, é preciso mudar de “pele”, ter novos “olhos”. Devemos re-construir o processo de aceitação e reconhecimento do descendente indígena, marginalizado e excluído em suas próprias terras. Mudemos de pele, então! Adotemos agora intuitivamente a pele do índio, visando direcionar metodologicamente este trabalho.

Propõe-se o reconhecimento do outro, entender suas novas necessidades, enxergar o que culturalmente restou deste povo indígena que a mais de 40 mil anos vive em terras hoje Brasileiras.

Segundo a FUNAI, hoje, no Brasil, vivem cerca de 345 mil índios, distribuídos entre 215 sociedades indígenas, que perfazem cerca de 0,2% da população brasileira. Cabe esclarecer que este dado populacional considera tão-somente aqueles indígenas que vivem em aldeias, havendo estimativas de que, além destes, há entre 100 e 190 mil vivendo fora das terras indígenas, inclusive em áreas urbanas. Há também indícios da existência de mais ou menos 53 grupos ainda não-contatados, além de existirem grupos que estão requerendo o reconhecimento de sua condição indígena junto ao órgão federal indigenista.

O grupo indígena Pataxós do Sul da Bahia que se pretende trabalhar, está disposto em uma linha tênue de classificação quantitativa, de acordo com as autoridades Federais. Estas comunidades indígenas vivem ainda em pequenas colônias, trabalhando com artesanato, ou em plantações. Sua maneira de viver vem sendo modificada há centenas de anos, por conseqüência das constantes brigas travadas pela posse de terras.

Estes, não mais pescam, caçam ou plantam para a própria subsistência. São resultado da intolerância e ganância dos VENCEDORES. Hoje, trabalham visando remuneração, muitos tem televisão ou outros equipamentos eletrodomésticos. Não falam mais sua língua, chamada agora por eles próprios de dialeto. Também não são, mas selvagens nem “domésticos”, são sombras de seus antepassados, vivem hoje na miséria aprendida com o homem branco e possuem novas necessidades para sua sobrevivência.

HABITAÇÃO

Raiz social e cultural na busca pela identidade

De acordo com o Programa de Subsídio à Habitação de Interesse Social (PSH), orientado pela FUNAI, cento e vinte e oito famílias indígenas da comunidade Pataxó, da localidade de Coroa Vermelha, em Santa Cruz Cabrália, Sul da Bahia - Brasil, que vivem em más condições de habitação às margens do rio Mutari serão removidas para uma área segura e receberão novas casas.

Para poder projetar residência para estas famílias de origem indígenas, buscamos inspiração em suas raízes arquitetônicas, cujas bases estão nas convicções mágicas que tinham tanto para a moradia quanto para o conjunto urbano. A disposição geométrica de uma aldeia visa funcionalidade, mas também é orientada pelo gosto. Uma aldeia circular, com orientação norte-sul, tendo como eixo a casa central servindo de passagem e como espaço de reuniões, seu conceito é a “aldeia do além” : assim, o arco da existência supera o tempo e o trânsito terreno em função do infinito. Esta filosofia governa os atos de viver, as expressões plásticas e mais ainda a poesia, compondo uma cultura bem definida.

Pluralidades de ações:
Agentes que manifestam mudança Governo índios iniciativa privada. Visando compatibilidade com diversos programas de geração de renda idealizados pela FUNAI (Fundação Nacional do Índio), o resgate da auto-estima social dos indígenas na aplicação de projetos de habitação, prova ser economicamente viável e inovador em relação à distribuição de recursos financeiros. Serão repassados, por unidade habitacional, R$ 6,5 mil (três mil dólares) pelo Ministério das Cidades e R$ 1,3 mil (quinhentos dólares) pelo Governo do Estado através da Secomp. Também, a Veracel Celulose oferecerá apoio técnico e logístico para a execução das obras. Propõe-se que as futuras habitações sejam pensadas de maneira a responder as atuais necessidades deste novo índio e resgatar traços de sua cultura construtiva e maneira de entender o morar.

“Não vivem esses bárbaros em aldeias, nem casas, como o gentio, nem há quem lhas visse nem saiba, nem desse com elas pelos matos até hoje; andam sempre de uma para outra pelos campos e matos, dormem no chão sobre folhas e se chove arrimam-se ao pé de uma árvore, onde engranham as folhas por cima, quandos cobre, assentando-se em cócoras.”
(Soares de Sousa, Gabriel - op.cit.85, 1567)

A introdução dos conceitos de sustentabilidade no projeto da habitação para descendentes indígenas envolve um leque abrangente de iniciativas. Neste projeto pretende-se tão-somente apontar e analisar o que se considera prioritário, agrupando-se as informações em cinco critérios:

Resposta Contextual e Impacto Estético;
Qualidade Ecológica e Conservação de Energia;
Quantidade de Mudança e transferibilidade;
Padrões Éticos e Eqüidade Social;
Desempenho Econômico e Compatibilidade.

DO ABRIGO À CASA


O processo de concepção das unidades habitacionais para estes descendentes de índios Pataxós, inicia-se em entender suas origens e costumes antigos, hoje alterados, em função dos anos de submissão indinísta ao homem branco.
O modo de morar dos índios desta etnia forma levantada, de maneira a entendermos o processo de transformação das necessidades deste índio hoje, na localidade de Coroa Vermelha Bahia, Brasil. Seu antigo abrigo basave-se na composição de doze estacas formadas a partir dos caules das árvores novas e dos moirões cravados no solo, que são envergados para o centro e fortemente amarrados uns aos outros no seu ponto de reunião. O teto, ou cobertura se faz pela superposição de grande quantidade de “folhas enormes de helicônia”, coqueiro ou patioba, sendo seu peso responsável pela manutenção no lugar. Apresentam forma acaçapada e baixa, e é no seu interior que se dá o preparo dos alimentos, em uma espécie de fogão constituído de quatro forquilhas fincadas na terra, nas quais repousam quatro varas, sendo estas cruzadas por várias outras formando um aparador para a caça, que pode ser consumida assada ou cozida.
(Debret, 1940: 61-62 e Wied-Neuwied, 1940: 209.)

O projeto de edificação popular para descendentes indígenas procura conjugar os conhecimentos antigos dos índios da tribo Pataxó, de não-índios e técnicos de várias áreas, em relação a fatores ambientais e climáticos, exigências de durabilidade, praticidade, economia, segurança, além de visar impacto positivo e duradouro sobre o ambiente físico ao qual se insere.

Com inspiração no antigo abrigo Pataxó, propõe-se manter a união das estruturas de sustentação da edificação, viabilizando sua fixação em um único ponto, mantendo funcionalmente a forma original do abrigo. Nas vedações e nos pisos, foram adotados o cedro-amargo, que possui resistência a pragas e o tijolo de barro, aproveitando recursos naturais da região. Algumas paredes são de tábuas e manta-juntas, técnicas muito usadas na região nordeste. Para a cobertura, foi adotada uma telha de fibra vegetal, vulcanizada, com isolante térmico e acústico, leve e de fácil instalação, coberta como acabamento por um transado de palha. A ventilação natural foi conseguida através de fechamentos com mosquiteiro em toda a extensão da construção nas áreas acima do forro e de “sheds” na cobertura.
Elementos complementares, como brises, forros, divisórias secundárias, esteiras, jiraus etc., serão construídos segundo técnicas artesanais indígenas, aproveitando mão-de-obra local e gerando novas opções econômicas quanto à utilização destes elementos, no seu dia a dia como artesãos (principal atividade econômica da região), desta maneira, estimulando a geração de emprego e identificação social com a casa própria, provando ser este processo de reconhecimento do OUTRO, economicamente viável e inovador em relação à distribuição de recursos financeiros, promovendo economia na construção e compatibilidade com as atuais necessidades deste grupo étnico.

Devido a dificuldades e alto custo do transporte, tudo foi feito para exigir o mínimo de manutenção especializada, demonstrando inovação na vanguarda da construção sustentável, aplicando materiais de fácil reposição e de particular consumo da comunidade, o que justifica sua possível adaptação a outras situações sociais. O projeto também exibe sensibilidade ao uso e manejo dos recursos naturais, a energia solar será usada para iluminação. Galões d'água farão o acúmulo de águas pluviais para utilização de sanitários. A utilização de tijolos de barro, com orifícios estimularão a utilização de vegetação nativa nos mesmos, tendendo melhorar fatores climáticos, buscando o isolamento térmico natural e fazendo desta edificação uma releitura da forma de viver e se relacionar com os recursos naturais da comunidade Pataxó de Coroa Vermelha.

Os trabalhadores envolvidos na produção a habitação apresentam fragilidades e demandas que são bastantes conhecidas por aqueles que atuam na construção civil. As iniciativas de melhoria das condições de hospedagem e alimentação nos canteiros de obras, de segurança no trabalho e de treinamento dos trabalhadores devem ser incluídas entre aquelas que visam a sustentabilidade. Na perspectiva de melhoria das condições da população moradora nos empreendimentos habitacionais destacam-se as seguintes iniciativas: Mescla de redá das famílias moradoras, de forma a evitar os riscos de formação de guetos de população excluída. Localização dos empreendimentos em áreas centrais e bem atendidas por infra-estrutura e serviços públicos, de forma a reduzir as demandas por transporte e facilitar a inclusão social.
Apoio técnico e operacional para a montagem e funcionamento dos condomínios, nos casos de habitação coletiva.
Previsão de uso misto no empreendimento, de forma a criar alternativas de emprego e renda, reduzir as necessidades de deslocamentos e, quando possível reduzir as despesas condominiais.

 

 

 

 

 

Equipe:

Marco Milazzo
Ana Paula Polizzo
Helena Calado
Gustavo Rosadas
Gustavo Martins

 

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