2000

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PARQUE DA CIDADE DE BARRA MANSA

 


 

PARQUE DA CIDADE DE BARRA MANSA

Barra Mansa - RJ - 2005

cliente: Prefeitura de Barra Mansa

área construída: 110.200 m²

 


 

Somos todos o resultado daquilo que vivemos, aprendemos e conseguimos acumular durante a vida. Se entendermos a cidade como conseqüência de nossa existência e da nossa vida em sociedade, facilmente perceberemos que ela se materializa na forma de nossos sonhos, desejos, necessidades, imperfeições, delírios, e angústias. Assim como as cidades, a arquitetura também carrega consigo este paradoxo social. Podemos, na leitura de suas permanências, identificar inúmeras posturas técnicas, funções programáticas, inspirações, pessoas, e tantos outros elementos que geraram, em consonância com seu tempo a construção da sociedade? É esta questão que nos inspira em pensar na recuperação do conjunto formado pelos Galpões do Café, objeto arquitetônico principal na requalificação do novo Parque da Cidade em Barra Mansa.

O PROJETO

“O impulso de preservar o passado é parte do impulso de preservar o eu. Sem saber onde estivemos, é difícil saber para onde estamos indo. O passado é o fundamento da identidade individual e coletiva; objetos do passado são a fonte da significação como símbolos culturais. A continuidade entre passado e presente cria um sentido se seqüência para o caos aleatório e, como a mudança é inevitável, um sistema estável de sentidos organizados nos permite lidar com a inovação e a decadência.” (Aldo Rossi em HARVEY, David, p.85: 1989).

O projeto para o novo Centro Cultural da cidade consiste na reforma de um conjunto de galpões existentes e na construção de um edifício anexo a eles. Apesar de não terem nenhum tipo de preservação patrimonial ou tombamento, os galpões são originais do período do café e foram intensamente modificados ao longo dos anos por terem abrigado diversos usos, atualmente encontrando-se com inúmeras alterações.

Nossa proposta de recuperação e reforma deste conjunto de Galpões baseia-se no entendimento de que é necessário, para a requalificação deste espaço, sua recuperação estrutural, utilitária (emprego dos novos usos), estética e volumétrica.

Assim, nos baseamos na imagem do seu passado, para propor sua recuperação, admitindo a valorização formal e estética de sua simetria, cheios e vazios, ainda perceptivelmente indicados em suas paredes. Propomos então investigar suas permanências físicas, tais como as tesouras existentes, ou as marcas nas paredes das antigas aberturas, visando restaurar parte de sua estrutura formal.

É através do reconhecimento deste conjunto de indicações pré-existentes, o que chamamos de vestígios do passado, que se formam as representações da atualidade, podendo ser este recuperado, a ponto de harmonicamente conversar com os novos tempos.

Tomamos como exemplo arquitetos como Scarpa e Grassi que foram homens preocupadíssimos com o patrimônio, e sua relação com ele era de estreita admiração e profundo respeito, o que provavelmente direcionou de uma maneira mais sutil suas intervenções. A sutileza de suas intervenções está presente nos detalhes, e a transição entre o que é novo e o que é antigo passa desapercebida, mas está lá, se quisermos ver com mais atenção.

“A verdadeira imagem do passado perpassa, veloz. O passado só se deixa fixar, como imagem que relampeja irreversivelmente, no momento em que reconhecido. ‘A verdade nunca nos escapará’ - essa frase de Gottfried Keller caracteriza o ponto exato em que o estoicismo se separa do materialismo histórico. Pois irrecuperável é cada imagem do presente que se dirige ao presente, sem que esse presente se sinta visado por ela”.(BENJAMIN, 224: 1892-1940).

No nosso projeto, é o emprego de intervenções pontuais que fazem com que a imagem do passado inspire a imagem presente, fazendo desta, sua cúmplice e parceira no desenvolvimento de uma nova espacialidade para o lugar. Com este objetivo, e a percepção e a valorização de importantes elementos, tais como, as aberturas verticais do edifício, a estrutura do telhado, as paredes portantes, sua lógica métrica e outros, podemos estabelecer as novas diretrizes de ocupação e apropriação dos espaços. Estas claras manifestações do passado, que insistem em se expor na construção já alterada, são permanências importantíssimas, que permitirão construir a adequada harmonia entre o novo e o antigo.

A IMPLANTAÇÃO

A recuperação do novo Parque da Cidade é de extrema importância para que o espaço configurado pelo entorno imediato aos galpões ganhe visibilidade, e consequêntemente, seja reconhecido pela cidade.

Com a retirada dos edifícios perpendiculares a linha férrea, os galpões serão percebidos inteiramente, assim, justificando sua importância como espaço cultural e integrador das diversas funções do novo Parque da Cidade, como também, na franca relação entre este equipamento histórico-cultural e o cidadão de Barra Mansa.

Com o objetivo de valorizar sua importância como conjunto, e de permitir o fácil e direto contato entre os galpões do café e seu anexo, e a total acessibilidade a este novo Centro Cultural, criamos um embasamento circundante a este conjunto, formado por escadas, rampas, platôs, taludes ajardinados e jardins.

O Centro Cultural Galpões do Café é formado por três volumes principais: os galpões históricos recuperados, a cobertura em aço que forma a praça coberta entre galpões e anexo, e um novo edifício anexo aos galpões.

A praça coberta funciona como um “link” entre antigo e novo e permite o fluxo e o fácil acesso aos diversos espaços do lugar por inúmeras direções. Também funciona como um espaço de transição, que permite a ampliação das atividades internas de ambos os edifícios para o exterior e vice versa.

Atualmente, o conjunto formado por cinco galpões é subdividido internamente, fruto dos diversos usos que ocuparam este lugar ao longo dos tempos. A nova necessidade espacial e programática do Centro Cultural nos permitiu entender e defender este espaço como único, propondo a retirada de todas as paredes internas, a manutenção e recuperação de parte dos pilares, vigas e estruturas de suporte do telhado.

O fato de necessitarmos de um grande espaço para eventos, feiras e exposições, nos orientou na definição espacial estratégica deste conjunto de galpões. Conseqüentemente, optamos por sua ocupação volumétrica parcial, permitindo que este espaço, antes fragmentado e exageradamente linear, agora permitisse uma ocupação mais proporcional, ganhando dimensões mais agradáveis, permitindo diversidade na ocupação de seus cheios e vazios.

As históricas paredes periféricas do conjunto de galpões e seu telhado recuperado criam limites volumétricos virtuais a um conjunto de equipamentos implantados internamente aos galpões. A opção de implantação destes equipamentos permite a configuração de vazios transitórios, que constantemente devem ser ocupados por feiras, livrarias, exposições, eventos, reuniões e outros, sem necessariamente formar paredes e salas fechadas. Este será o espaço do encontro, da passagem, do estar, sem barreiras que o fragmentem, mas com usos que o preencherão.

Queremos um espaço livre para ser percebido, para ser descoberto e vivido. Neste espaço, a história é exposta por seus elementos permanentes, estando em harmonia com o novo, e através dele se fortalecendo.

O EDIFÍCIO ANEXO

O edifício anexo aos galpões é composto por uma grande cobertura, que obedece a altura limite da cumeeira do edifício histórico e suas linhas horizontais. Abaixo desta cobertura são delineados blocos funcionais, que permitem a franca circulação e apropriação de seus espaços intermediários, permitindo que as quatro fachadas do edifício dos galpões sejam percebidas, assim, funcionando como um grande gradiente visual e espacial.

A opção pela não compactação volumétrica de atividades nos antigos galpões gerou a necessidade da criação de um edifício anexo que recebesse as demais atividades do programa. Este edifício pode ser acessado independentemente, o que permite que algumas destas principais atividades do programa de necessidades fossem implantadas neste local, tais como o auditório, o conservatório de música, a administração geral do Centro Cultural e outras.

A construção deste novo edifício permite que os usos como auditório, o conservatório de música, as oficinas, sejam utilizadas tecnicamente na sua amplitude, já que será executado um espaço já previamente destinado a determinada atividade, e não uma adaptação espacial.

O TRATAMENTO DO CONJUNTO DOS GALPÕES HISTÓRICOS

Se observarmos e levarmos em consideração elementos de qualquer edificação histórica, como os materiais empregados, ritmo da fachada, seus cheios e vazios, a marcação de elementos significativos de sua estética, altura, cor, geometria, métrica, embasamentos, coberturas, espacialidade, seremos capazes de compreender boa parte da formação estética destes edifícios e também sua releitura através de uma lente contemporânea. Na proposta para os edifícios dos galpões do café, esta leitura é fomentada através da conversa entre antigo e novo, das soluções arquitetônicas que se encaixam essencialmente no contexto que tange a preexistência de uma edificação. Nesta proposta de recuperação o antigo e o novo estão mais próximos do que imaginamos e podem, então, ser relacionados, de maneira a viverem em harmonia. Não se trata da anulação ou a valorização de um ou se outro, e sim a uma harmonia gerida pelos contrastes, cuja balança será conduzida por cada caso em questão, indicando as circunstancias às quais o novo uso terá que equilibrar, a fim de cumprir com o seu novo papel.
As paredes que formam o perímetro do conjunto de galpões escondem sua estrutura, formada por pilares, vigas e tesouras. Nossa proposta consiste na retirada de todas as alvenarias internas a esta pele histórica proporcionando, no entanto, a manutenção de suas raízes estruturais. Também propomos a recuperação da estrutura de telhado e de seus fechamentos em telhas de barro.

Com a abertura das paredes internas, o espaço antes fragmentado ganha novas proporções e conseqüentemente abre caminho para novas apropriações. Encontramos nas fachadas vestígios da existência de janelas em toda sua extensão, e optamos pela abertura destas e, conseqüentemente, na reconfiguração estética deste perímetro formado pelas quatro fachadas do conjunto de galpões.

Esta opção fez com que estas novas aberturas funcionassem como importantes respiros, conectando interior e exterior, permitindo ao espaço maior concentração de luz e ventilação natural.

O galpão central encontrava-se sem cobertura. Neste caso, com o objetivo de transformar este conjunto de cinco galpões em um único espaço, propomos o fechamento deste vazio com uma cobertura metálica, constituída por tesouras em aço e vidro. Para resolver a devida necessidade de proteção solar, sugerimos a implantação de brises sobre a cobertura de vidro, evitando o contato do vidro diretamente com o calor dos raios solares.

Propomos também a retirada do piso e contrapisos existentes com a intenção de refaze-los. Optamos então pela especificação de um piso altamente resistente formado por placas de concreto com juntas secas, que será implantado em todo dos galpões. No embasamento externo optamos pela aplicação de placas de granito flameados.

O ESPAÇO DO ESTAR, DO LAZER E DO TRABALHO

O novo espaço interno dos antigos galpões, surge para ser constantemente transformado, vivido e busca ser extenção da área pública (do Parque e da Rua). Foi descoberto pelo desejo de ser público e versátil, construído como uma xilogravura, buscando falar através de seus contrastes. É marca do seu tempo para contar e recontar histórias, na medida que se faz descobrir a cada dia, servindo de suporte para uma estratégia rumo à construção da cidadania, uma vez que poderá possibilitar a potencialização de encontros, de trocas de informações, experiências e convívio social.

 

 

 

 

 

Equipe:

Marco Milazzo
Maria Stella Vaz
Ana Paula Polizzo
Gustavo Rosadas
João Paulo Bastos
Carol Braga
Carolina Bailune
Gustavo Martins
Sara Jorge

 

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