2000

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ORQUESTRA SINFÔNICA DE BELO HORIZONTE

 


 

ORQUESTRA SINFÔNICA DE BELO HORIZONTE

Belo Horizonte - MG - 2005

cliente: Companhia Vale do Rio Doce

área construída: 5.800 m²

 


 

A IMPORTÂNCIA DA COOPERAÇÃO ENTRE AS PARTES
(Entorno Imediato)

Devemos entender a requalificação do Edifício da Secretaria Estadual de Fazenda, que irá receber a Sede da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, como uma ação dentro de um quadro geral de intervenções que fazem parte do Circuito Cultural da Praça da Liberdade. Este plano maior engloba o incentivo à diversidade de atividades a serem realizadas nos edifícios do entorno imediato da Praça da Liberdade, gerando uma maior confluência de pessoas na área e valorização do caráter simbólico da mesma.

Entender toda a diversidade programática do Circuito Cultural proposto, assim como a diversidade arquitetônica dos edifícios que compõem esse circuito foi o ponto de partida para a intervenção no objeto em si.

Chegando pela Avenida João Pinheiro, percebemos que o espaço urbano se expande numa grande esplanada que contém a Praça da Liberdade e os edifícios que compõem seu entorno imediato. Estes possuem entre si, grandes diferenças na relação com esse espaço urbano no qual estão inseridos, sendo marca, cada um, de sua época. Nesta grande heterogeneidade encontra-se o atual edifício da Secretaria Estadual de Fazenda, que traz em si, por sua vez, a heterogeneidade característica de sua própria linguagem arquitetônica.

Trata-se de um exemplar da arquitetura eclética datado do início do século XX, e seu contexto de construção está relacionado diretamente ao desejo de dar uma nova fisionomia arquitetônica àquela área da cidade, através da expressão da modernidade corrente e afirmação republicana, à altura da nova capital do Estado. Os valores da época se expressavam simbolicamente naquele espaço, e, por conseguinte no próprio edifício, através da adoção de modelos, tecnologias, materiais e mão-de-obra importados da Europa.

É integrado ao seu vizinho, o Centro de Referência do Professor (antiga Secretaria de Educação) pela Praça Carlos Drummond de Andrade, e também à Rua Bahia pelo pilotis do Anexo à Biblioteca Pública. Essa conformação possibilita grande relação entres esses edifícios, através de um grande fluxo de pessoas que circula pela área, tornando-se também um fator polarizante para a intervenção no edifício da Secretaria de Fazenda.

Através da compreensão da multiciplidade de influências que sofre o edifício objeto da intervenção ao longo dos anos e da ambigüidade do contexto em que está inserido, direcionamos nossa proposta no sentido de uma intervenção, marca do nosso tempo, que fará parte também do conjunto heterogêneo da Praça da Liberdade.

O CONCEITO

O estático e o mutante, velho e novo formam o lugar;
Nossa proposta para requalificação do edifício destinado a receber a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais responde às necessidades do novo programa de maneira dinâmica e responsável, focando na manutenção das raízes históricas do edifício preexistente, ao mesmo tempo em que compartilha novas formas arquitetônicas contemporâneas, objetivando a criação de uma linguagem compositiva que estimule diferenças físicas e gráficas à proposta.

Com base nessas premissas optamos em destacar a atividade de música, fazendo com que o fator da acústica, agora parte integrante fundamental deste espaço, se torne o principal condutor das transformações necessárias à realização das atuais atividades no edifício e sua ocupação pela Orquestra Sinfônica de Minas Gerais. Assim, a música invade o antigo edifício sede da Secretaria de Fazenda do Estado, se misturando à história, subvertendo funções e contaminando musicalmente a estrutura robusta do atual edifício.

A MÚSICA COMO DIREÇÃO

A infecção compositiva musical proposta é conduzida pelas novas necessidades e limitada pelas formas antigas a preservar. Os novos usos impulsionarão também novas dinâmicas de ocupação dos espaços, que poderão ser mutantes, de acordo com as contínuas transformações do corpo da Orquestra Sinfônica ao longo do tempo.

As novas dinâmicas agem diretamente no interior do edifício antigo demandando um novo corpo, formado por novos pisos, novas estruturas, novas paredes e novos tetos. Este novo corpo invade o espaço histórico dotando-o de uma nova configuração interna estruturalmente independente dos elementos construtivos originais. Esse partido permite a adoção de um desenho contemporâneo contrastante com o original ao mesmo tempo em que distingue os materiais utilizados em cada época. O antigo e o novo dão suporte um ao outro, gerando entre as partes clara cooperação e permitindo em qualquer ambiente uma leitura clara e rápida.

MATERIALIZANDO CONCEITOS

De maneira a abrigar a grande Sala de Concertos e as áreas de apoio ao espetáculo, que necessitam de amplos espaços e complexas relações entre eles, e, por conseguinte tomam grande parte da área do edifício, propomos a divisão conceitual e estrutural deste em duas partes. A primeira parte é formada pelo corpo mais antigo e simbólico do edifício, que chamamos de parte estática, e tem como eixo divisor a escada de acesso ao prédio. Para esta, propomos a completa manutenção e restauração dos elementos. A segunda parte, que chamamos de mutante, refere-se ao restante do edifício. Para esta, propomos a manutenção da estrutura periférica, através da restauração das fachadas laterais características marcantes das intervenções ocorridas no edifício em 1908 e 1927.

Nesta parte mutante, propõe-se a demolição das paredes divisórias internas e da fachada posterior, de maneira a ampliar em direção aos fundos do terreno a área de ocupação. Em todo o interior desta casca gerada por duas pesadas paredes antigas e um leve fechamento contemporâneo, introduzimos um novo corpo, formado inteiramente de estrutura metálica, independente da estrutura antiga, de maneira a viabilizar tecnicamente todos os itens do programa.

MULTIPLICIDADE DO NOVO CORPO

Este corpo, introduzido ao antigo edifício, se prolifera criando um sistema de fechamentos e divisões que dão suporte técnico às novas propriedades do edifício, invadindo espaços antigos, porém, respeitando e valorizando a clara identificação dos espaços estáticos e dos espaços mutantes. Este sistema de fechamentos é caracterizado pela adaptabilidade ao espaço onde é empregado, podendo possuir características acústicas reflexivas ou absorventes, configurando divisões dos espaços, passagens, painéis expositores, etc. Além disso, nas paredes preservadas do edifício, este sistema pode ser utilizado como uma pele para embutir as novas instalações prediais demandadas pelos novos usos, ou ainda como suportes de televisores de plasma, tela para projeções, além de inúmeras outras possibilidades, preservando as paredes antigas gerando menor impacto ao prédio histórico.

Esta pele funciona como um sistema do novo corpo, e está sujeito a modificações constantes. Além disso, este sistema deve interagir com visitantes, funcionários, técnicos e músicos, aliando tecnologia de informação com releituras hierárquicas dos espaços propostos.

RELAÇÕES PROGRAMÁTICAS
Percursos

Funcionalmente, o edifício foi dividido em várias partes relacionadas entre si conforme os blocos principais de atividades estabelecidas pelo programa. O térreo, configurado como principal acesso ao edifício e área destinada ao patrocinador, funciona como elemento divisor e polarizador de fluxos para os demais pavimentos superiores e para o porão.

Além da área para o patrocinador, o térreo abriga ainda alguns espaços como loja e café, além da bilheteria e chapelaria. Logo ao se aproximar do edifício, o visitante toma conhecimento do novo tema que se apropria do espaço. A cafeteria, que ocupa parte do térreo e porão, se espalha também pela área externa a partir do porão, ocupando parte da Praça Carlos Drummond de Andrade. Assim, o tema musical da arquitetura não se limita somente ao interior do edifício, se proliferando também para o exterior, possibilitando concertos ao ar livre, exposições, e outras atividades. O funcionamento desta extensão do café poderá, inclusive, funcionar independentemente do interior.

No porão estão localizados o salão interno principal da cafeteria e todo o setor de serviços gerais do edifício, com entradas independentes e portaria de controle para músicos, técnicos e materiais. A entrada pode ser realizada tanto pela Praça Carlos Drummond de Andrade quanto pela Rua Gonçalves Dias. Essa entrada possibilita também aos portadores de deficiências acesso ao edifício ao nível do passeio, onde este poderá, através de um elevador, chegar ao térreo e a partir daí se direcionar a qualquer parte do edifício.

O segundo pavimento concentra na parte estática as funções administrativas, de atendimento ao público e de Documentação e Difusão Cultural. Na parte mutante, se localizam as salas de apoio logístico, salas especializadas e a sala de Música de Câmera.

De maneira a aproveitar o amplo pé direito, foi criado um pavimento intermediário entre o segundo e o terceiro andares na parte mutante. Nessa área foi localizada a parte do programa de acesso restrito a músicos e técnicos, como os camarins e a guarda de instrumentos e material especializado. Estas funções estão relacionadas com a área do espetáculo logo acima através do hall de acesso à escada, elevador ou ainda pelo elevador do coro, que poderá ser utilizado para transporte facilitado de instrumentos e o elevador do piano, para transportar o piano de cauda.

O terceiro pavimento é composto pela área do espetáculo em si, pelo foyer de acesso do público à platéia na parte estática e da Sala de Concertos na parte mutante, onde o público pode assistir ao espetáculo na platéia ou em balcão superior.

Na área da Sala de Concertos localizam-se os apoios diretos ao palco e áreas técnicas para ar condicionado, junto ao balcão. Nestes espaços também localizam-se as cabines de luz e dimerizadores.

De maneira a compatibilizar a incorporação de novos usos ao edifício histórico, adequando-o às normas de segurança e acessibilidade, foram necessários a incorporação de elementos ao edifício. Para tal, buscou-se fazer essa incorporação com o menor impacto possível ao edifício histórico. Os sanitários foram localizados em posição centralizada a todo o conjunto, seguindo em prumada, do porão até o piso intermediário do segundo pavimento, de maneira a atender o Foyer da Sala de Concertos. Duas prumadas de escadas foram locadas também nos fundos do edifício, no avanço em relação à edificação antiga, assim como o elevador de carga, que atende todos os pavimentos desde o subsolo até a Sala de Concertos, e o elevador para deficientes físicos que leva do porão ao térreo. Novos elevadores hidráulicos são propostos na parte estática do edifício para a circulação de visitantes. O sistema de condicionamento de ar através de splits foi escolhido por proporcionar menor impacto na edificação preservada.

É no porão que se localizam, também, as salas de máquinas dos condensadores (tipo Self em número de 8 de 25tr), seguidas em andares superiores, por áreas técnicas destinadas a abrigar aparelhos do sistema de ar condicionado (2 Splits de 25 e 30tr em cada pavimento).

A sala de concertos e suas necessidades acústicas: O canivete Suíço

A Sala de Concertos configura-se como o ponto principal do programa, recebendo destaque na volumetria do edifício. É nela que a compositiva musical torna-se mais presente; sua forma é resposta direta das demandas acústicas e funcionais de uma grande orquestra, buscando enfatizar a presença do diálogo constante entre o antigo e o novo.

Esta função se concentra em um espaço rígido de aproximadamente 35x30x12m, porém revestido por dispositivos de ajuste acústico, que possibilitam o controle da reverberação. Por outro lado, o estado de compactação acústica dialoga perfeitamente com a flexibilidade proporcionada pelo aumento da caixa de palco e redução da platéia e vice-versa. Este fator também permite diferentes configurações cênicas, tornando o local adaptável a vários usos como concertos, projeções, conferências e outros, podendo se comportar como um espaço transformável. Para tal, propomos a modulação do palco em partes independentes, que através de um sistema pantográfico podem se elevar e baixar e serem armazenados, enquanto não estiverem sendo utilizados, na parte inferior do palco que estiver montado.

Este espaço transformável foi idealizado criando alusão à mecânica de um “canivete Suíço”, cujas engrenagens são responsáveis por sua flexibilidade. Este sistema de compreensão do espaço estimulou a criação de alguns sistemas mecânicos de dinâmica espacial dos elementos formadores dos espaços cênicos.

No que se refere às soluções acústicas, procurou-se dispor superfícies de revestimento das paredes e teto da sala organicamente, formando diversos planos inclinados refletores ou absorventes conforme sua localização. Estes planos são também ajustáveis e podem ser rotacionados para propiciar maior ou menor tempo de reverberação sonora dentro da caixa, com controle também da absorção do som.

Os painéis refletores são compostos de placas de gesso e madeira. Entre estes painéis e o teto e entre estes e as paredes laterais deverá ser aplicado um material com superfície absorvente, no caso, lã de vidro ou placas absorventes.

Como a profundidade da sala não é muito grande, o som que atinge as últimas cadeiras dos espectadores é ainda e principalmente direta, com pequena reverberação. Na parede de fundo da sala, atrás dos espectadores, a superfície deverá ser absorvente através da aplicação de lã de rocha ou placas absorventes. Já no fundo do palco, devem ser dispostas placas refletoras.

Os assentos estofados funcionam como elementos absorventes, fazendo com que o coeficiente sonoro emitido seja o mesmo, com ou sem pessoas no espaço. Estes permitem sua remoção e compactação para diversos tipos de montagem e armazenamento.

As fachadas laterais preservadas do antigo edifício ficam aparentes no fundo do palco e no fundo da platéia, podendo ser encobertas por cortinas se houver necessidade. No entanto, as esquadrias deverão ser completamente isoladas acusticamente de maneira a não possibilitar a passagem de som para o exterior do edifício.

A RESTAURAÇÃO E O ESPAÇO

Com a intenção de expor claramente as pré-existências e as adaptações resultantes da inserção de um programa contemporâneo na estrutura da atual Secretaria de Fazenda do Estado, alguns passos metodológicos para a competente restauração da edificação devem ser adotados.

Nos levantamentos fotográficos e observações “in loco” feitas pela equipe, pôde ser observado que os revestimentos estão em bom estado de conservação, porém possuem muitas alterações que descaracterizam o edifício, como o encobrimento das pinturas nas paredes e rebaixos de teto que escondem os forros originais. Para tal, propomos a retirada de todos esses elementos acrescidos e posterior tratamento das matérias parietais e tetos. Deve-se fazer uma prospecção estereométrica, para a determinação das diferentes camadas de cores usadas na edificação. Este procedimento objetivará, ou a escolha de uma palheta de cores consistente com as anteriores ou, caso a opção seja por uma palheta diferente, a simples e justa preservação da memória da edificação. Em relação à ornamentação, formas de fibra de vidro de cada um dos elementos decorativos deverão ser executadas, facilitando a sua reposição, caso necessária.

Propomos também a retirada das esquadrias de metalon colocadas em reformas anteriores e a sua substituição por esquadrias de madeira.

Cuidados especiais deverão ser tomados com a preservação e restauração dos elementos estruturais, sejam eles de madeira ou de ferro fundido, como os pisos e a escada de acesso ao edifício. A deterioração de ambas as estruturas pode se dar por diferentes causas, e a cada uma delas corresponde um procedimento de preservação, sendo que só uma pesquisa no local poderá indicar o procedimento adequado.

Entretanto, depois da aplicação dos diferentes procedimentos - mecânicos ou químicos - de preservação, em ambos os casos deverão ser aplicados os diferentes primers para selagem e posterior pintura, executada preferencialmente à pistola, nas cores especificadas pelo projeto definitivo. O mesmo procedimento deverá ser adotado para as diferentes esquadrias em madeira e para as diferentes folhas de fechamento também em madeira.

Para o telhado existente, procedimentos similares deverão ser adotados, sempre que possível, tanto para a estrutura quanto para as chapas de zinco existentes, evitando a sua mera substituição.

Para os pisos, sugere-se a limpeza e restauração dos segmentos executados com ladrilho hidráulico e mármore. Levando-se em conta as necessidades programáticas contemporâneas, sugere-se também a completa substituição das instalações prediais.

Vale a pena ressaltar que todas as decisões referentes à restauração e recuperação das estruturas e revestimentos antigos serão fruto de uma análise mais apurada do objeto, cabendo a esta fase de projeto apenas a delimitação de diretrizes básicas.

A NOVA FACHADA

Propomos a completa diferenciação do novo volume criado para abrigar as novas funções, visando a nítida separação do que é histórico e original ao edifício do que é intervenção posterior.

Assim, propomos uma pele dupla composta de chapa de zinco furada e vidro, que encobrirá todo este volume, que trará a ele o aspecto de leveza e transparência, contrastante com a massividade e peso da estrutura original. Por outro lado, essa nova pele faz uso de placas de zinco, tornando-se uma releitura contemporânea da utilização histórica do material empregado no edifício antigo, em parte da cobertura.

Esta pele é composta por uma estrutura metálica com fechamentos em módulos de painéis de chapas de zinco perfuradas deslizantes verticalmente, e por fora uma camada de vidro que dá unidade a todo o conjunto e tende a refletir parte do entorno, minimizando o impacto do novo volume inserido ao original.

Esta dupla pele funciona como uma proteção à insolação e uma proteção acústica ao edifício. Esta poderá será flexível nas áreas das aberturas do prédio, podendo as chapas de zinco ser manipuladas internamente, possibilitando abertura e fechamento quando necessário, permitindo a entrada de luz natural. Ao mesmo tempo, este painel constrói uma gráfica contemporânea para a cidade, que poderá ser mutante a cada dia, retratando para fora do prédio modificações empregadas a partir do espaço interno, exprimindo um ritmo livre que também faz referência e ao mesmo tempo se contrasta com a rigidez e estaticidade do edifício antigo.

 

 

 

 

 

Equipe:

Marco Milazzo
Ana Paula Polizzo
Gustavo Rosadas
Gustavo Martins

 

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