2000

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MUSEU DA TOLERÂNCIA

 


 

MUSEU DA TOLERÂNCIA

São Paulo - SP - 2005

cliente: Universidade de São Paulo

área construída: 13.500 m²

 


 

“A estupidez tornou-se tão comum quanto era antes o senso comum; e isso não significa que se trata de um sintoma da sociedade massificada ou que as pessoas ”inteligentes” estejam poupadas dessa doença. A única diferença é que a estupidez permanece felizmente inarticulada entre os não-intelectuais e torna-se insuportavelmente repulsiva entre os “inteligentes”. Em meio à intelligentsia, pode-se até mesmo dizer que quanto mais inteligente um indivíduo vem a ser, mais irritante é a estupidez que compartilha com todos os outros”. (Hannah Arendt, 1993: 45).

DISCUTINDO O TEMA

Refletindo e pesquisando sobre o tema proposto, nos deparamos com uma série de referenciais arquitetônicos muito próximos à nossa temática, tais como o museu Judaico (1989-99), projetado pelo arquiteto Daniel Libeskind e o memorial as vítimas do holocausto (2000-05) também em Berlim do arquiteto Peter Eisenman.
Libeskind faz de suas formas dramáticas materializações do holocausto, chegando a rasgar seu edifício em inúmeras aberturas em forma de cicatrizes, um verdadeiro monumento à dor causada pelo preconceito. Eisenman espalha lápides de concreto em forma de um labirinto ou tapete fúnebre, gerando silêncio e repetição, assim como um dominó chinês. Ambos fazem da forma uma aliada na tarefa de representar simbolicamente o tema da intolerância.
Sabemos que o resultado causado pela intolerância tem, ao longo dos tempos, gerado dor e sofrimento para a humanidade, e que a razão de sua existência gira entorno do estranhamento e do não-reconhecimento do outro como semelhantemente, independentemente da sua raça, cor, ações diárias, crenças filosóficas, poder econômico, capacidade intelectual, física ou religião.
Segundo o dicionário Aurélio, tolerância corresponde ao ato de se respeitar o direito que os indivíduos têm de agir, pensar e sentir de modo diverso do nosso. Para outros, tolerância é uma das tantas virtudes necessárias para elevar o ser humano à condição de civilidade, já que o problema existencial do homem é conviver com o que é tolerável em relação ao outro, resultado do simples fato de viver em sociedade na busca por verdades absolutas. O filósofo Alain, pensador sempre citado nos estudos sobre as virtudes, diz ainda que a tolerância é uma espécie de prevenção contra o dogmatismo, para que este não vire fanatismo (na dimensão pessoal), fundamentalismo (na dimensão religiosa) e totalitarismo (na dimensão de Estado ou de Governo).
Portanto, entendemos que quem pretende possuir "a verdade", ou melhor, "a certeza", termina sendo intolerante em aceitar outros posicionamentos, se fechando a escuta de tudo que apresente diferente ou incompreensível ao seu esquema conceitual de fala e ação. Para o escritor José Saramago, "a tolerância pára no limiar do crime. Não se pode ser tolerante com o criminoso, com a tortura, o estupro, a pedofilia, a escravidão, o narcotráfico, o terrorismo, a guerra. Educa-se ou pune-se" (FSP, 27/01/95).
Percebemos então, que nem a tolerância deve ser tolerada! Segundo Raymundo de Lima, o filósofo Vladimir Jankélévich, considera que, se levada a extremo, a tolerância "acabaria por negar a si mesma". Neste contexto, percebemos que as idéias de tolerância e intolerância, mesmo opostas, são tão próximas que parecem ser resultado uma da outra, assim com a idéia de claro e escuro. A verdadeira harmonia encontra-se no meio termo, na penumbra: está no reconhecimento das diferenças humanas. “No fim, o partido anunciaria que dois e dois são cinco, e todos teriam que acreditar. Era inevitável que o proclamasse mais cedo ou mais tarde: exigia-o a lógica de sua posição. Sua filosofia negava tacitamente não apenas a validez da experiência como a própria existência da realidade externa. O bom senso era a heresia das heresias. E o que mais aterrorizava não era que matassem o cidadão por pensar diferente, mas a possibilidade de terem razão”.(George Orwell, 1998: 78).

CICATRIZES INTERNAS

“Nosso medo mais profundo não é de sermos inadequados. Nosso medo mais profundo é de sermos poderosos além da medida. É nossa luz, não nossa escuridão, que mais nos assusta. Nós nos perguntamos: Quem sou eu para ser brilhante, atraente, talentoso, fabuloso? Na verdade, quem é você para não ser? Você é uma criança do espírito. Você, pretendendo ser pequeno, não serve ao mundo. Não tem nada de iluminado no ato de se encolher para que os outros não se sintam inseguros ao seu redor. Nascemos para manifestar a Glória do espírito que está dentro de nós. E, à medida que deixamos nossa luz brilhar damos permissão para outros fazerem o mesmo. À medida que libertamos nosso medo, nossa presença libera outros”.(Nelson Mandela).

Concluímos que nosso trabalho não poderia tornar-se repetitivo ao evidenciar em nossa arquitetura proposta, símbolos dos resultados da intolerância dos homens, assim como Eisenman, Libeskind, e tantos outros arquitetos. Pensamos, portanto, que o caminho para nossa solução conceitual não deveria dar ênfase às cicatrizes externas e visíveis, já que entendemos que o resultado da ausência da tolerância pode também estar naquilo que não percebemos ou a princípio não podemos enxergar.
Visto isto, já que o tema principal deste trabalho é a tolerância, nossa proposta arquitetônica não poderia externar como símbolos principais, elementos fixos ou completamente definidos, tampouco estes poderiam ser resultados de qualquer condicionante tipológico. Estes símbolos da tolerância devem ser formados pelas pessoas, pelos seres humanos e as relações estabelecidas entre eles.

A DUALIDADE - CONCEITO PROJETUAL

Tolerância é um conceito chave da civilização moderna e ao mesmo tempo é um de seus dramas conceituais. Como materializar a tolerância? Será possível refleti-la na solidez da matéria? Então, percebemos que deveríamos estimular no visitante, a percepção física do tema, criando no edifício proposto duas principais leituras:

A primeira:
Propomos uma pele ou invólucro que estimule o aspecto visual externo ao edifício. Esta pele é percebida pela presença e movimento dos próprios visitantes no interior do museu, ocasionando novas dinâmicas e mutabilidade. São diferentes proporções e percepções da mesma silhueta. Um mesmo homem em busca por suas visões de mundo.

A segunda:
Este mesmo homem é internamente percebido como indivíduo, possuidor de inúmeras diferenças. São estas, que fazem do homem, ser humano. A tolerância é o reconhecimento de que somos homens, geradores de erros, acertos, bondades, maldades... Esta dualidade natural está presente na noção de humanidade, e é através de sua compreensão que propomos continuar buscando sempre nossas utopias. Dentre elas, a tolerância.

Desta maneira, buscamos com nossa proposta não uma resposta direta e dedutível às atrocidades cometidas pelos homens, mas uma nova possibilidade de enxergar os fatos, onde o homem é o centro ativo e modificador destes.

Enquanto as exposições buscam expor temas através de fatos culturais e históricos (Negros - Escravidão e Racismo, Educação e Cidadania, A Questão Indígena, Inquisição e Marranismo, Holocausto e Anti-semitismo, Tolerância ao Intolerável), a arquitetura que contém e reúne toda essa massa informativa vai buscar ser um fato histórico em si, reflexo direto das posturas e reflexões humanas.

Enquanto a exposição descreve e figura os acontecimentos e atos, denunciam o crime e despertam curiosidade, desprezo ou piedade, a arquitetura quer trazer o crime à consciência do mundo, fazendo com que as pessoas sintam-se co-responsáveis e reajam. Ao mesmo tempo, que compreendam que deve ser mais que assistir com terror e piedade, e sim, estar dentro do fato, também como vítimas, não apenas se compadecendo delas.

Esta arquitetura poderá servir de base a um diálogo político-social, na medida em que ele se abre e se mostra para a cidade. É o espaço onde as pessoas poderão transformar o que vêem em sentido, juntando resíduos e fragmentos para montar cenários e criar reflexões sobre o presente. Ser um espaço também que possibilite lidar com a cultura do outro, tomando conhecimento dela a partir de um processo de estranhamento.

Os espaços de exposição foram pensados de maneira a poder estar em constante transformação e crescimento. A arquitetura foi pensada para suportar os mais diversos meios de exposição, desde imagens fixas, projeções, sons, atividades interativas, performances, etc. A própria evolução da tecnologia não nos permite delimitar um tempo ou período para uma exposição de longa duração, pois corremos o risco de deixarmos de levar ao público as conquistas que a técnica impõe ao mundo moderno. Por isso, a flexibilidade total do espaço expositivo. A exposição pode seguir várias lógicas dentro da arquitetura, podendo ser fragmentada ou cronológica. A arquitetura e esta nova proposta museológica se complementam para enfatizar a todo momento a interatividade presente nos vários espaços do museu e nas suas exposições.

É fundamental também que o tema extrapole as fronteiras físicas do espaço-museu e se integre com a vida cotidiana das pessoas: este tipo de ação proporciona todo tipo de condições para o entendimento do tema, para gerar processos de auto-conhecimento e para possibilitar o convívio e troca de experiências entre os agentes.

Desta maneira, a arquitetura toma a forma como expressão mais forte. Não a forma que pretende passar uma idéia sombria e trágica. Mas a forma que exprime clareza, os planos que são definidos com precisão para formar o volume que conterá todas as funções programáticas – o prisma. Este volume de características puras e clássicas poderá vir a possibilitar a compreensão plena da natureza e da história, por ser a morfologia do consciente, do mito da razão. Uma forma primária e originária, núcleo de todas as formas possíveis do viver. Toda esta simetria, racionalidade e equilíbrio podem ser “explodidos” pela brutalidade dos acontecimentos demonstrados dentro dele. Ao mesmo tempo, a impessoalidade e mecanização sugerida pela forte geometria são também quebradas pela naturalidade da convivência humana que pode ser vista pelo exterior. Isso gera uma arquitetura tensa, no limite entre movimento (pessoas) e equilíbrio (morfologia monolítica), mostrando o princípio da contradição – que é o princípio fundamental da história!

Sendo assim, esta arquitetura assume uma linguagem própria, mutante, humana, já que foi destinada a acolher mostras que demonstrem as diversidades e atos brutos que tolheram da sociedade o livre pensamento. Assim, a arquitetura deve ser uma ação que se realiza. Ela é realidade e vida, registra a mudança e o processo da sociedade, torna-se um espaço vivo.

Configura-se como uma arquitetura tão sólida e ao mesmo tempo tão efêmera, que intervém na cidade de forma tão forte através da presença e das ações das pessoas. O público, dessa maneira, não é só espectador, mas é ativo, participante, constrói o espaço e dá consistência às reflexões sobre o tema. Busca atingir e despertar também o olhar inocente, desprovido de carga histórica, ou seja, crianças e pessoas de todas as idades. Estas poderão entender a base temática mesmo desconhecendo (ou conhecendo pouco) fatos históricos. Isso vai gerar uma multiplicidade de visões, onde o processo e a experimentação são pontos bases, apropriação dos temas e articulação com a comunidade.

O PROGRAMA

O edifício monolítico pousa sobre um embasamento de 80cm de altura formado pelo terreno inclinado até chegar ao passeio. Esta superfície inclinada prepara a aproximação do prédio, que por sua vez convida os visitantes e transeuntes a entrarem no edifício, dirigindo-os para o acesso principal. A partir do hall principal de acesso, ou seja, o “ponto zero” do edifício, os visitantes podem subir para as áreas de exposição ou descer para as áreas do cinema, auditório e salas de aula. Desta maneira, o complexo suporta uma divisão funcional bem definida que pode ser isolada e ter funcionamento independente quando necessário: ambientes para exposições nos pavimentos elevados; biblioteca e laboratórios no térreo; auditório, sala de cinema e salas de aula nos pavimentos inferiores e loja e restaurante em volume anexo.

Toda a parte de carga e descarga se dará no primeiro subsolo em área de docas, que é interligada à área de reserva técnica e montagem, facilitando as montagens e desmontagens de exposições e otimizando os fluxos dentro do edifício.

Os visitantes são então estimulados a explorar os espaços expositivos do museu subindo e circulando através de rampas que ligam o acesso principal ao último andar de exposições. Estas rampas sugerem um movimento contínuo ao redor do perímetro do edifício que propicia muitas descobertas sensitivas, na medida em que as áreas de exposição são interligadas de maneira interativa e em níveis diversos, ocasionados pelos patamares das rampas. Desta maneira, o visitante percorre uma trajetória dentro da aquitetura, um “promenade” que expõe e relaciona os elementos do programa.

Assim, a arquitetura do Museu da Tolerância não cria um circuito definido e fechado, mas aberto para novas possibilidades, na medida em que os limites físicos entre circulações e espaços de exposições são indefinidos. Os espaços das rampas podem se tornar suporte para exposições (seu piso, suas paredes, tetos) ao mesmo tempo em que os espaços de exposição podem ser invadidos pelas circulações e podem também se conectar com outros espaços de exposição. Desta maneira, os ambientes não poderão ser definidos e delimitados por paredes ou barreiras intransponíveis, e sim por limites subjetivos: barreiras de luz, paredes de vidro, cortinas d’água, etc, ou seja, limites que distorçam silhuetas, atinjam todos os sentidos e gerem emoção, sempre com o intuito de gerar um diálogo entre a arquitetura, as exposições e os visitantes.

A circulação das pessoas dentro do Museu poderá ser percebida pelo exterior, uma vez que a fachada é composta por uma dupla pele de vidro: uma fachada interior de vidro comum e uma pele exterior de perfis auto-portantes de vidro (Profilit Pilkington). Este invólucro exterior tem a função de garantir o controle eficiente da intensidade da luz e do calor no edifício, ao tempo em que cria uma gráfica difusa de limites e silhuetas que estão no interior do edifício.

Neste projeto a relação entre espaço interno e invólucro se dá na medida em que a fachada revela para o entorno o que acontece dentro do edifício. Enquanto o espaço interior brinca com a exploração e a descoberta das exposições, a fachada oferece uma imagem mutante e dinâmica para o campus da Universidade e para os que por ali circulam.

 

 

 

 

 

Equipe:

Marco Milazzo
Livia Heinerich
Gustavo Rosadas
Ana Paula Polizzo
Gustavo Martins

 

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