2000

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ANEXO DO MUSEU DO OURO

 


 

ANEXO DO MUSEU DO OURO

Sabará - MG - 2004

cliente: Museu do Ouro

área construída: 219 m²

 


 

Sabará

"A dois passos da cidade importante a cidadezinha está calada, entrevada. Atrás daquele morro, com vergonha do trem.

Só as igrejas só as torres pontudas das igrejas não brincam de esconder.

O Rio das Velhas lambe as casas velhas, casas encardidas onde há velhas nas janelas. Ruas em pé pé-de-moleque pensão de Joaninha Agulha Quem não subir direito toma vaia... Bem-feito!

Eu fico cá embaixo imaginando na ponte moderna – moderna por quê? A água que corre já viu o Borba. Não a que corre, mas a que não pára nunca de correr.

Ai tempo! Nem é bom pensar nessas coisas mortas, muito mortas. Os séculos cheiram a mofo e a história é cheia de teias de aranha. Na água suja, barrenta, a canoa deixa um sulco logo apagado. Quede os bandeirantes? O Borba sumiu. Dona Maria Pimenta morreu.

Mas tudo é inexoravelmente colonial: bancos janelas fechaduras lampiões. O casario alastra-se na carcunda dos morros, rebanho dócil pastoreado por Igrejas: a do Carmo – que é toda de pedra, a Matriz – que é toda de ouro. Sabará veste com orgulho seus andrajos... Faz muito bem, cidade teimosa!

Nem Siderúrgica nem Central nem roda manhosa de forde sacode a modorra de Sabará-buçu.

Pernas morenas de lavadeiras, tão musculosas que parece foi Aleijadinho que as esculpiu, palpitam na água cansada.

O presente vem de mansinho de repente dá um salto: cartaz de cinema com fita americana.

E o trem bufando na ponte preta é um bicho comendo as casas velhas."

[Carlos Drummond de Andrade]

Teimosa Sabará. O trem e os benefícios trazidos com ele não trazem mais espanto, já fazem parte da cidadezinha que ainda brinca de esconder. A cidade se esconde na homogeneidade de texturas do casario que se alastra. Seu conjunto arquitetônico inexoravelmente colonial sustenta essa teimosia.

Na parte mais elevada da cidade, cercado por exemplares do mesmo tempo, o Museu do Ouro, a antiga Casa de Intendência e Fundição do Ouro da Vila Real de Nossa Senhora da Conceição de Sabará, participa ingênua e humildemente desse rebanho pastoreado pelas Igrejas.

A proposta para o Anexo do Museu do Ouro nasce da análise e da compreensão da conformação do conjunto arquitetônico da cidade de Sabará. Análise de conceitos macro como a maneira pela qual a cidade se faz ver, como se dá a vida desta cidade, como se dá a relação direta e inconsciente com a história tão presente... Na escala do micro, observar como são suas texturas, seus materiais, seus volumes...

A nova edificação do anexo materializa o presente que vem de mansinho, é o fruto das novas demandas da contemporaneidade, desse tempo que não pára nunca de correr. Por outro lado, mostra que a história não deve ser um sulco logo apagado pela obsolescência... Mostra que é possível haver convivência harmônica e pacífica entre as necessidades culturais de nossa época e a edificação colonial.

O conceito

Assim como a cidade descrita por Drummond, o anexo proposto para o Museu do Ouro também brinca de se esconder. Ele é fundamentado nas características básicas e primitivas de ser um abrigo adaptado à natureza.

É, assim, premissa fundamental a manutenção da topografia natural do terreno, tirando partido de suas inclinações. São criados percursos naturais de rampas, escadas e são formados platôs onde se dão as atividades propostas. As árvores frutíferas mantidas no terreno se tornam pontos de convergência, criando ao seu redor diversas ambiências.

Com a escolha da vegetação apropriada são dadas ambiência e integridade à proposta, adaptando e conjugando a condição existente do Museu às novas funções que aí deverão se desenvolver. O volume do anexo, assim, torna-se uma arquitetura silenciosa e sutil que busca ser minimamente gestual resultando numa simplicidade que se perde e se confunde na homogeneidade da vegetação.

O Museu do Ouro – materiais

É através destas arquiteturas remanescentes da nossa história que podemos refazer, de testemunho a testemunho os itinerários percorridos em nossa caminhada. Não na busca do tempo perdido, mas indo de encontro ao tempo que ficou vivo para sempre entranhado nesses exemplos. O que os caracteriza é a carga de saber que um dia se configurou e ali permaneceu para que nós pudéssemos contemplar hoje. Como produto espontâneo das necessidades e conveniências da economia e do meio físico e social em que se desenvolve, a arquitetura colonial representa as qualidades e peculiaridades de nosso povo.

O edifício do Museu do Ouro é um testemunho arquitetônico de nosso passado autêntico, a raiz do que somos e do que seremos. Em seu aspecto rude, mas acolhedor, possui características próprias muito fortes. Características que se fixam na memória e que o distingue do harmonioso conjunto.

É exatamente com este foco que desenvolvemos nossa proposta. Buscamos criar a intimidade necessária com a arquitetura do edifício do museu para que seja possível reconhecer e pinçar estas peculiaridades locais e referenciá-las contemporaneamente no projeto do anexo. Transformar estes fragmentos históricos simples e despojados em valores. Afinal, segundo Benjamin: “em qualquer fragmento há história”.

Nossa proposta busca inovação ao despertar o simples, primordial e ancestral: a técnica construtiva e os materiais. A técnica utilizada para a construção da edificação antiga do museu, adobe e pau-a-pique sobre baldrames de pedra, adquire em nossa concepção uma importância cultural e legítima. Assim, em uma leitura contemporânea desta técnica, nossa proposta para o anexo propõe uso de paredes feitas em gabião, ou seja, pedra de mão estruturada por grade metálica e perfis de aço. Além disso, outras referências são feitas com uso de materiais como lajotas cerâmicas nos pisos e treliças de madeira para fachadas, onde pode ser aplicada vegetação rasteira.

Buscamos nesse momento uma total harmonia entre arte e ciência; uso de técnicas contemporâneas com procedimentos que tenham características simples e primitivas através do uso potencial dos materiais que forma um todo harmônico sem mimetizar ou confundir.

Pretendemos que haja, ao contemplar a arquitetura do anexo um súbito reconhecimento da origem das referências, autenticamente nacionais e já guardadas na memória, que leva subitamente ao reconhecimento de sua identidade. Essa referência busca não ser somente visual, mas também uma percepção tátil através das texturas lidas a partir do edifício existente.

A arquitetura

A arquitetura para o anexo busca dar, através de um discurso atual, uma resposta adequada a questões da articulação de funções contemporâneas com as funções existentes do objeto antigo. Torna-se uma arquitetura comprometida com o contexto, com as necessidades e aspirações do tempo em que vivemos, usando sensibilidade e técnica.

A intervenção reconhece os aspectos potenciais na arquitetura preexistente e propõe participação e diálogo com criação contemporânea. O preexistente é assim, protagonista e a nova intervenção é protagonizada por ele. Antigo e novo, são assim, conclamados a constituir um diálogo entre si.

Além disso, a proposta para o anexo parte da situação atual de relação histórica e conceitual entre Museu do Ouro e quintal, buscando, dessa maneira, “vivenciar” o próprio quintal, e não simplesmente ser uma edificação no quintal. Daí, conseqüentemente, a manutenção do caráter pitoresco do conjunto.

A arquitetura para o anexo do Museu do Ouro busca através da articulação dos espaços e fechamentos em panos de vidro, criar transparências, potencializando as perspectivas através dos ambientes. Busca diluir os limites, gerando integração entre edifício e paisagem, esta representada pelo quintal e sua vegetação. Este fato gera uma ambivalência entre interior e exterior, com uma fluidez total dos espaços, criando imprevisibilidade e dinamismo. O lugar é tornado assim, versátil e multifuncional.

A utilização da luz juntamente com os materiais enriquece a experiência da fruição, através da criação de novas sensações. O próprio gabião, usado estruturalmente em algumas paredes, permite a passagem de feixes de luz, criando efeitos e ambiências inusitadas.

Também a aplicação de treliça de madeira recoberta por vegetação nas fachadas e as coberturas verdes buscam manter, no anexo, uma relação com a questão fundamental e original do “quintal”, do ambiente verde com as espécies frutíferas tendo todo o destaque.

A solução técnico-estrutural proposta para o anexo é, como dito anteriormente, baseada em uso de gabiões, funcionando assim como embasamento de baldrame e como contenção de terra. As edificações superiores terão suas paredes em alvenaria estrutural, facilitando a execução, evitando problemas com concretagens e possibilitando uma melhor distribuição das cargas no terreno. Esta distribuição permite a utilização de sapatas corridas, que pela sua dimensão reduzida, podem ser desviadas das raízes das árvores. Todos estes fatores geram uma maior economia e racionalização na construção, sendo compatíveis com o valor disponível para tal.

O paisagismo

Buscamos um conceito de se pensar a arquitetura da paisagem, que evoca raízes de antigas tradições. Em sintonia com as atuais tecnologias, busca ênfase nos materiais naturais e, por ser muito simples, esconde grande sutileza e complexidade, por possuir grande carga simbólica.

Vislumbramos as florestas no passado dos assentamentos indígenas com sua técnica de abrir clareiras estratégicas. Os primeiros movimentos de abordagem da terra descoberta para o interior, a ocupação colonial, a presença dos bandeirantes, que criou a necessidade de ampliar, muitas vezes destruindo a paisagem.

Com o olhar na simplicidade das praças coloniais, seu calçamento, muros, pontos de reunião e encontro da vida urbana é que direcionamos a proposta paisagística para o anexo, localizado em um dos poucos quintais remanescentes da cidade. Todos esses vocabulários, rituais que asseguram a identidade humana local.

Nessa tendência se dá a concepção do novo Anexo: um grande quintal com a edificação que busca se “esconder” nessa paisagem, ao contrário das grandes árvores frutíferas existentes, que ganham destaque. Estes são percebidos dentro de um único contexto, providenciando escala e referência ao conjunto. O núcleo central está, assim, inspirado na paisagem natural, com a força das linhas, cores e volumes das massas arbóreas originais. Acrescentamos a isso, vegetação rasteira de forração e áreas pavimentadas em lajotas de cerâmica, que traz também a cor natural do terreno. Em algumas partes, propomos uso de blocos intertravados de concreto vazado com grama, permitindo uma grande permeabilidade e não apresentando trincas pela movimentação das raízes das árvores. As coberturas são de lajes leves volterranas, com proteção em lona plástica, propiciando a colocação de placas de grama. Este tipo de cobertura, é ótimo isolante térmico e acústico.

È assim, uma tentativa em elaborar uma paisagem intensificando as características originais do ambiente natural através de uma tarefa que envolve análise, sensibilidade, conhecimento técnico e consciência ambiental.

O programa

As inclinações do terreno e a manutenção das árvores frutíferas existentes criam espaços setorizados para a ocupação das funções. A partir da entrada pela Rua da Intendência tem-se acesso diretamente ao anfiteatro ou ao espaço de múltiplo uso. Estes ambientes podem ser conjugados entre si, uma vez que a parede de fundo da sala de múltiplo uso pode ser aberta e criar integração entre estes dois espaços, possibilitando usos ao ar livre, em caso de número maior de espectadores.

Subindo pelo terreno, se tem acesso às salas de reserva técnica e restauro, esta última possuindo um grande plano de vidro que pode ser fechado, caso haja necessidade, possibilitando que os visitantes possam observar o trabalho dos restauradores.

Aos fundos e ligado com o pátio do museu, encontram-se o café e a loja. O café, totalmente envidraçado e transparente, possibilita total integração com o ambiente do quintal, podendo, inclusive, se necessário, se expandir e usar a área externa, com colocação de mesas.

O afastamento de 1,50 das divisas gera uma circulação livre de serviços, de abastecimento, carga e descarga da loja e café, acesso aos depósitos de material de limpeza, além de acesso independente aos blocos de banheiros por parte dos que freqüentam o anfiteatro.

Temos, dessa maneira, a criação de módulos básicos e independentes, podendo ser construídos em etapas: um módulo formado pela sala de múltiplo uso e sala de apoio, um módulo formado pelo café e loja e seus apoios, um módulo de banheiros e depósito e o último módulo formado pelas salas de restauro e reserva técnica. Isso possibilita maior liberdade na construção deste anexo, podendo os módulos definidos serem agregados na mesma etapa de obra. A parte e também independente, encontra-se o anfiteatro ao ar livre.

Reiteramos ainda que, estes espaços podem ser integrados às áreas externas do próprio Museu do Ouro, podendo ter acesso controlado por portão no pátio frontal e total integração no pátio aos fundos.

Há assim, reunião entre passado, presente e futuro no espaço. Buscamos, nas palavras de Lúcio Costa, “a construção de um lugar sublime e transcendente que se constrói com o fluir único da vida, de cada momento, e não puramente um espaço como envoltório de funções desprovido de vida".

 

 

 

 

 

Equipe:

Marco Milazzo
Ana Paula Polizzo
Gustavo Martins

 

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